Diamantino Júnior, da Redação

 

O padre salesiano Justino Sarmento, do povo tuyuka, no município de São Gabriel da Cachoeira, é um dos três representantes indígenas do Amazonas convocados pelo papa Francisco para compor o Sínodo da Amazônia, a assembleia especial de bispos da igreja católica que acontece de hoje, dia 6, a 26 de outubro, em Roma.

Em entrevista exclusiva ao BNC Amazonas, Sarmento disse que esse encontro quer “construir uma igreja com rosto amazônico”.

O sínodo tem o objetivo de discutir e repensar o papel da igreja na Amazônia. Daí a escolha pelo tema “Amazônia: novos caminhos para a igreja e para uma ecologia integral”.

Salesiano da Inspetoria São Domingos, em São Gabriel da Cachoeira, o sacerdote participa do sínodo como um perito pan-amazônico para cuidar dos aspectos culturais e religiosos dos povos indígenas.

“Estamos participando das atividades sinodais desde 2018 e vamos apresentar esse trabalho durante as reuniões dos grupos de trabalho em Roma”, afirmou Sarmento.

 

 

Padre Sarmento (segundo da dir. para a esq.) representa a Amazônia em Roma

 

Povos da floresta como interlocutores

Segundo o padre, serão debatidos inúmeros temas durante os 21 dias do sínodo. O objetivo dessas discussões é que os povos da floresta (índios, quilombolas, ribeirinhos) sejam os interlocutores, e não meros receptores.

“Os povos da floresta devem assumir o protagonismo de seus destinos e apresentar suas demandas”, disse.

O salesiano explica que essa é a oportunidade para os indígenas e os povos que vivem na floresta dizerem ao mundo como querem ser tratados pela igreja e pela sociedade.

E também é o momento para a igreja deixar de ser o porta-voz dos indígenas, de deixar o paternalismo e ouvir o que eles têm a dizer.

“É uma mudança de visão do clericalismo para sonhar juntos com uma igreja com rosto amazônico”, destacou.

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Sínodo e a Amazônia

Sarmento destacou a importância do sínodo para a preservação da Amazônia, em um momento em que o Brasil é pauta ambiental de todo o mundo.

Para ele, a relevância do encontro foi a mudança de procedimento com os povos indígenas e os demais segmentos sendo ouvidos. “A grande mudança é o fato de que os povos foram consultados para que falassem suas necessidades, desejos e propostas para o bem da floresta”.

O padre disse que na fase preparatória, que começou em 2018 com a visita do papa Francisco à cidade peruana de Puerto Maldonado, os povos indígenas foram ouvidos em uma série de consultas e assembleias para a elaboração dos documentos que serão debatidos pelos bispos em Roma.

“Os encontros com as bases serviram para a elaboração de um documento leve e resumido que será debatido durante o sínodo, juntamente com outros temas. Esse trabalho servirá de embasamento para as decisões da assembleia e, posteriormente, para as decisões do papa”.

Após os 20 dias de reuniões, discussões e debates os bispos vão elaborar um relatório final que será entregue ao sumo pontífice.

“Nossa participação como expert é para darmos subsídios aos bispos para tomar as decisões sobre as demandas apresentadas. O sínodo tem um caráter consultivo e não deliberativo, mas ampara as futuras decisões papais”, disse Sarmento.

 

Sarmento (terceiro da esq. para a dir.) vai atuar como expert em Amazônia

 

O resultado das três semanas de debates irá para as mãos do papa Francisco e daí poderá se tornar uma encíclica, ganhando o peso de norma da igreja.

O Vaticano publicou o Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho que é o documento que orienta a discussão do sínodo, reuniões pré-sinodais e outras atividades que têm sido realizadas como preparação para o encontro) questionando o atual modelo de desenvolvimento na Amazônia.

Ele aborda a exploração internacional dos recursos naturais da região, o extrativismo ilegal, a situação das comunidades indígenas e ribeirinhas, entre outras questões, como a conivência de governos com projetos econômicos que prejudicam o meio ambiente.

“Estamos realizando um trabalho delicado e bonito, buscando uma ecologia integral que traz muitos desafios para todos”, afirmou.

 

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Casados e mulheres

Sarmento destacou alguns temas que serão discutidos durante o sínodo como de grande relevância para a nova visão da igreja para a região amazônica.

Os ministérios ordenados, que consistem na ordenação de homens casados para o exercício sacerdotal, são de grande importância para o trabalho da igreja na região.

“Estamos ouvindo outras igrejas que têm esse sistema, como a anglicana, para entender como funciona nesse formato de evangelização”.

Para ele, isso não significa o fim do modelo sacerdotal milenar, mas sim um avanço e adequação às necessidades da igreja para a região amazônica.

“O formato tradicional continua, com o modelo celibatário dos padres, mas a ordenação de homens casados é uma forma de manter a igreja presente nas comunidades da floresta”.

A participação maior das mulheres na igreja também será um tema discutido durante o sínodo e o ponto de vista delas será apreciado pelos bispos.

“O encontro será o momento para as demandas, os problemas serem postos em discussão e as propostas de soluções para esses problemas sejam apresentadas. É o momento para sermos ouvidos”, afirmou.

 

Fotos: acervo pessoal do padre, cedidas gentilmente ao BNC Amazonas